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28 de outubro de 2011

FREUD EXPLICA NO FUTEBOL - Por NELSON RODRIGUES / FREUD EXPLAIN IN FOOTBALL - by NELSON RODRIGUES.

E pensar que 55 anos atrás o fabuloso jornalista e dramaturgo, Nelson Rodrigues, escreveu a pérola abaixo. Até hoje, pelo visto, muito pouca gente leu. Fica aqui o meu recado através das sábias idéias do escritor.

Ontem à noite todos puderam ver que a Seleção Brasileira Feminina de Futebol perdeu a medalha de ouro por esse motivo. Tenho visto isto há muito tempo, em todos os níveis de nosso futebol, seja masculino ou feminino e é hora de cuidarmos disto, seriamente. Afinal de contas não queremos fracassar novamente em 2014.

FREUD NO FUTEBOL

Um amigo meu, (inclusive eu) que foi aos Estados Unidos informa que, lá, todo mundo tem o seu psicanalista. O psicanalista tornou-se tão necessário e tão cotidiano como uma namorada. E o sujeito que, por qualquer razão eventual, deixa de vê-lo, de ouvi-lo, de farejá-lo, fica incapacitado para os amores, os negócios e as bandalheiras. Em suma: — antes de um desses atos gravíssimos, como seja o adultério, o desfalque, o homicídio ou o simples e cordial conto-do-vigário, a mulher e o homem praticam a sua psicanálise.

O exemplo dos Estados Unidos leva-me a pensar no Brasil ou, mais exatamente, no futebol brasileiro. De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em conseqüência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise.

Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria*, que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: — antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: — fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo.

E não era uma pane individual: — era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, a delegação, o técnico, o massagista. Nessas ocasiões, falta o principal. Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Foi a nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai. E aqui pergunto: — que entende de alma um técnico de futebol? Não é um psicólogo, não é um psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: — no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Karênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: — teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.

Sim, amigos: — havia um comissário de polícia, que lia muito X-9, muito Gibi. Para tudo o homem fazia o comentário erudito: — “Freud explicaria isso!”. Se um cachorro era atropelado, se uma gata gemia mais alto no telhado, se uma galinha pulava a cerca do vizinho, ele dizia: — “Freud explicaria isso!”. Faço minhas as palavras da autoridade: — só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele.

[Manchete Esportiva, 7/4/1956]

Comentário: Roberto Queiroz de Andrade. Foto: Divulgação.

Tradução: Roberto Queiroz de Andrade e Roberto Queiroz de Andrade Junior.


And to think that, 55 years ago the fabulous journalist and playwright, Nelson Rodrigues, wrote the pearl below. Until now, apparently, very few people read. Here is my message through the wise ideas of the writer.

Last night everyone could see that the Brazilian Women's Soccer Team lost the gold medal for that reason. I've seen it for so long, at all levels of our football, whether male or female and it's time to take care of it, seriously. After all do not want to fail again in 2014.

FREUD EXPLAIN IN FOOTBALL.

A friend of mine (me too) who went to America, reports that there, everyone has their psychoanalyst. The psychoanalyst has become so routine as necessary and as a girlfriend. And the guy who for whatever reason possible, no longer see him, hear him, smell him, is unable to love, business and anything else. In short: - before one of these very serious acts, such as adultery, embezzlement, murder, or the simple and heartfelt tale-the-vicar, women and men practice their psychoanalysis.

The U.S. example leads me to think of Brazil or, more exactly, in Brazilian football. In fact, the Brazilian football is anything but your shrink. Take care of the integrity of the shins, but nobody remembers to preserve the inner health, the delicate emotional balance of the player. And yet, let's face it: - it is time to give a crack to the soul, perhaps poor, perhaps perish, but that is indisputable.

The fans, the press and radio give little attention to accidents and miserable. For example: - a mere muscle strain triggers headlines. But no newspaper or broadcaster would get a never-to-elbow pain that would affect a player and make you unfit to take a throw-vague. You see: there is a Briosa and diligent medical staff, which can range from a runny nose common to bilateral tuberculosis. There is only one expert to safeguard the excruciating psychic fragility of the teams. As a result, the Brazilian player is always a poor being in crisis.

For us, football does not translate into technical and tactical terms, but purely emotional. Just remember, what was the game! Brazil vs Hungary *, we lost the World Cup in Switzerland. I say "lost" and why? For the technical superiority of their opponents? Absolutely. I even believe in technical brilliance, mental agility, we are unbeatable. Here's the truth - before the game with the Hungarians were defeated emotionally. I repeat - were defeated by one of these shakes obtuse, irrational and free. Why this fear of animals, this wild panic, why? No one could say it.

And it was not a single crash: - drowning was a collective. Ship wrecked there, players, fans, the head of the delegation, the delegation, the technician, the masseur. On these occasions, the main fault. The players are ready, the coach and the masseur.

But who wins and loses games is the soul. It was our soul that collapsed in the face of Hungary, was the soul that collapsed in the face of Uruguay. And here I ask: - who understand the soul of a football coach? It is not a psychologist, not a psychoanalyst, is not even a priest. For example: - Brazil v. Uruguay in the game understand that Freud would be a much more effective at the mouth of a tunnel that Flavio Costa, a Zeze Moreira, or Martim Francisco. In the United States, there is a Bovary Karenina one that does not pass before the adultery, the psychoanalyst. Well, - we would have been world champions at that time if the team had attended previously for five years, his psychoanalyst.

Yes, friends: - there was a police commissioner, who read much X-9, very comic book. For all the man made the comment scholar: - "Freud would explain this." If a dog was run over if a cat was moaning louder on the roof, if a chicken hopped the fence of the neighbor, he said: - "Freud would explain this." I echo the words of authority: - Freud would explain only one of Brazil's defeats against Hungary, Brazil against Uruguay and, in short, any defeat of the Brazilian man in football or out.


[Headline Sports, 7/4/1956]

Comment: Roberto Queiroz de Andrade. Photo: Disclosure.
Translation: Roberto Queiroz de Andrade and
Roberto Queiroz de Andrade Junior.

3 comentários:

Anna Cecília Sobral disse...

Roberto, eu tenho lido muuuuuuito sobre quase tudo, mas esse texto nos mostra com lucidez a fragilidade emocional do brasileiro, que pode ser bom de briga, mas é emocionalmente despreparado. Parece até que temos medo de ser vencedores! E isso se repete para além do futebol ou do desporto, atinge de cheio a vida. Nelson Rodrigues me atraiu, e acabei ganhando um presente na forma de texto.
Gostei muito, Abraços.

Roberto Agente Credenciado disse...

É concordo contigo sobre isto, precisamos urgentemente cuidar desta relação, "parece realemente que a maioria dos brasileiros tem essa fragilidade, este sentimento de falta de confiança......Parece ....não!!! Temos medo de sermos vencedores. Eu dei uma melhorada, porque passei muito tempo nos Estados Unidos e lá a primeira coisa que se ensina é isto!!! A CONFIANÇA EM VOCE MESMO....YES, WE CAN! Estamos sempre conversando com o Tony e sei que ele esta contando os segundos que os separam, é bonito ver isto, nos dias de hoje, PARABÉNS!!!! A voces...os 3.

Anônimo disse...

Concordo plenamente, pois "eles" deveriam se preocupar mais com o estado emocional dos jogadores, como de qualquer outro atleta. O corpo fisico pode estar sim, presente do determinado local( campo de futebol,arena,piscina,etc), porem, a mente pode esta muito longe do que se imagina. A imprensa, e ate mesmo nós, a sociedade, cobramos muito dos atletas que nos representam sem ao menos entender o que passa na cabeça de cada um ao enfrentar uma determinada seleção, no caso dos jogadores de futebol, assim, ao ler essa crônica de Nelson Rodrigues, observamos que os jogadores sofrem sim emocionalmente como qualquer outra pessoa.

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